A arquitetura minuciosa de uma colmeia, a propagação de uma epidemia, as oscilações dos preços no mercado financeiro e o caminho de um raio que corta a atmosfera. Fenômenos que pertencem a mundos inteiramente distintos e não relacionados, regidos por leis e encadeados por processos que não se falam. E, mesmo assim, salta aos olhos algo fundamental em comum entre eles: a imprevisibilidade. Todos carregam um forte componente aleatório, como se o acaso estivesse no comando, direcionando seu desdobramento. Mas o mais admirável é que, se olharmos com atenção, conseguiremos enxergar padrões. Apesar da aparente desordem, alguma estrutura parece operar por baixo da superfície.
O fascínio pela aleatoriedade e por padrões emergentes me acompanha há muito tempo, desde os laboratórios de Estado Sólido do Instituto de Física na USP, onde pesquisei transições de fase na matéria sólida, até minha atuação como trader e investidor no mercado financeiro. Compreender e trabalhar com os mecanismos do acaso tornou-se meu ofício. É a região dos sistemas complexos, da teoria do caos, da incerteza e dos modelos quantitativos.
Esse é o meu território.
Como reconhecer estrutura onde, à primeira vista, parece haver apenas ruído?
Este site nasce de uma longa convivência com essa pergunta.
Um espaço para compartilhar uma investigação que, há muito tempo, orienta meu trabalho e faz meu sangue ferver.
O alquimista quantitativo
A imagem que escolhi para este primeiro texto é a de um alquimista quantitativo.
A expressão pode parecer contraditória. O alquimista remete a tentativas quase míticas de transformação de chumbo em ouro ou a busca pela vida eterna, enquanto o quantitativo remete a dados, modelos matemáticos, estatística. Um parece pertencer ao mundo da imaginação simbólica, enquanto o outro, ao mundo da ciência e da técnica.
No entanto, a alquimia medieval não era apenas sobre transformar chumbo em ouro. Em sua essência, era uma busca por descobrir e compreender as estruturas ocultas da natureza. Nesse sentido, o trader quantitativo também procura e trabalha com estruturas e padrões subjacentes. O físico faz a mesma coisa, o matemático e o filósofo. Todos, cada um à sua maneira, não se satisfazem com a aparência das coisas, querem chegar a algo mais profundo, essencial.
Mudam os instrumentos, permanece a busca.
O mercado e o acaso

O mercado financeiro é o lugar perfeito para colocar essa investigação à prova. É onde a tensão entre acaso e estrutura se manifesta de forma mais concreta. É sedutor na medida em que parece conter padrões. É fácil sentir que entendemos sua lógica. Mas pune violentamente quem confunde probabilidade com certeza.
Oferece dados em abundância, mas não entrega significado em contrapartida. Permite testes, métricas, simulações, modelos e estatísticas, mas subverte tudo isso quando o regime muda. É suficientemente regular para alimentar a ilusão de que seus segredos foram descobertos, mas brutalmente instável a ponto de fazer muita gente bater em retirada.
No mercado, a aleatoriedade não é um conceito abstrato. Ela tem preço, drawdown, euforia, medo e consequência. Ela assume forma, ganha matéria, encarna. Na física teórica, a natureza não se importa com suas crenças, mas no mercado você é cobrado por elas.
É um ambiente árduo, porque não respeita nossas teorias apenas porque gostamos delas. Exige método, humildade e capacidade de agir na incerteza. Exige aceitar que o melhor modelo continua sendo apenas um modelo. E exige, acima de tudo, entender que o acaso não é um inimigo a ser destruído, mas a própria matéria-prima com a qual trabalhamos.
Em outras palavras, o mercado é um sistema que não se deixa domesticar por raciocínios superficiais e lineares, nem por narrativas dedutivas. O famoso “elementar, meu caro Watson” simplesmente não funciona aqui. Ele muda de regime, alterna fases, produz tendências, lateralizações, reversões, exageros, pânicos, euforias e muito, mas muito mesmo, ruído. Ainda assim, por trás de tudo isso, existem padrões e recorrências estatísticas.
Talvez por isso eu goste tanto dele.
O acaso não é um inimigo a ser destruído, mas a própria matéria-prima com a qual trabalhamos.
Reflexões sobre o caos
Este site é, no fundo, um lugar para reunir reflexões e ensaios. Formular, examinar, tensionar e espremer ideias para ver se param em pé. Uma forma de pensar enquanto as palavras brotam dos dedos e correr riscos intelectuais para se aproximar da verdade. Em última instância, a questão de como lidar com a incerteza não é apenas técnica, é também filosófica.
Trabalho nessa região estranha onde o acaso encontra a estrutura. É nesse terreno que a matemática e a filosofia se fundem e o mercado se comporta como um sistema vivo. É onde aquilo que parecia ruído começa a revelar sua forma.
Assim como há beleza matemática na arquitetura de uma colmeia, também é possível reconhecer um mecanismo de extrema beleza por trás das oscilações do mercado.
A tarefa permanece essencialmente a mesma dos velhos alquimistas: atravessar a superfície aleatória das coisas para enxergar a ordem que já está lá, dissolvida no caos.
Sugestões de leitura
- Caos: A Criação de uma Nova Ciência, de James Gleick
Introdução envolvente à teoria do caos, à dinâmica não linear e aos padrões que emergem em sistemas aparentemente desordenados. Mostra como ordem e imprevisibilidade podem coexistir. - The Misbehavior of Markets, de Benoit Mandelbrot e Richard L. Hudson
Uma crítica aos modelos financeiros excessivamente regulares. Mostra que os mercados apresentam turbulências, descontinuidades e riscos extremos que os modelos tradicionais frequentemente subestimam. As ideias de Mandelbrot serviram de base para o pensamento de Nassim Taleb. - Iludidos pelo Acaso, de Nassim Nicholas Taleb
Uma investigação sobre como confundimos sorte com competência e aleatoriedade com causalidade. Essencial para distinguir padrões reais de interpretações produzidas pelo ruído. - Desafio aos Deuses: A Fascinante História do Risco, de Peter L. Bernstein
História de como a humanidade aprendeu a compreender, medir e administrar o risco, transformando o acaso em objeto de investigação racional. - A Ciência da Sorte, de Adam Kucharski
Uma exploração das estruturas matemáticas presentes em jogos, epidemias, esportes e mercados. Mostra como modelos probabilísticos revelam regularidades em fenômenos aparentemente aleatórios.

